sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Aren't you scared?


A Vida e a Morte através do cinema ocidental

Il deserto rosso de Michelangelo Antonioni


Seria pretensioso dizer que o bom cinema está intrinsecamente ligado à exploração do terrível, das verdades inconvenientes, dos aspectos aparentemente mais básicos para a compreensão e descodificação da nossa existência, porém não estou equivocada quando afirmo que para muitos, a nossa existência não passa da repercussão de acções consequentes da sucessão contínua do sol no céu. Il deserto rosso de Michelangelo Antonioni é prova da reflexão sobre o tema: a viagem deste ser estranho com emoções que somos nós.
No entanto, penso que qualquer pessoa se consegue identificar com Antonioni, talvez até por esse motivo ele tornou-se “O” cineasta; por conceber obras que nos entram pelas entranhas, de uma ou de outra forma.
Antonioni mudou o curso do cinema e, consequentemente, a estrutura pela qual percepcionamos o mundo e as coisas. O modo como trabalha o conteúdo através da expressão da imagem poder-nos-ia levar por caminhos monótonos e aborrecidos, o que, em linguagem corrente se traduziria simpaticamente por “uma grande chatice, em que não se passa nada”. Tal não acontece: o tempo é exposto ao máximo mas nós não damos pelo tempo “físico” passar.
O cinema, enquanto representação visual da realidade consegue descodificar tabus culturais – é um veículo excepcional de comunicação: um bom filme apropria-se da realidade para contar histórias: enquanto no decorrer da vida quotidiana achamos que um objecto apenas vale pela função que lhe foi dada, aquando a criação e pela denotação que lhe atribuímos, no cinema, esse objecto tem um valor conotativo simbólico, encara variantes através da interpretação. Estas múltiplas leituras de uma imagem ou objecto são conseguidas a partir do reflexo das nossas emoções, no cinema, enquanto espectadores, participantes passivos da história.

Antonioni não procurou a arte, procurou a vida; essa realidade que é tudo menos virtual ou fictícia, que nos enforma pelo limite da existência. Os aspectos formais vieram depois, como o próprio nome indica, para dar forma a uma ideia, que nunca se viu como ideologia, mas como verdade subjectiva, transformada em necessidade de expressão. Aos olhos do espectador, poderíamos estar na presença de arte mas seria injusto delimitar os filmes apenas pelo forma: eles contêm elementos muito mais fortes do que isso, como é o caso de uma visão plana do mundo em relação ao tempo.
O estado de espírito que percorre o filme demonstra aversão ao processo de sentir. É criada uma espécie de confusão, uma incoerência do ser humano, em que simultaneamente é necessário ficar naquele tempo e espaço mas deseja partir, para qualquer lugar, melhor do que onde se encontra.
A forma nunca poderia ser separada do conteúdo porque, para Antonioni, é através do exterior que se chega ao interior. Por outras palavras, é através da expressão que se chega às “almas”. Assim, ele abandona as regras formais do cinema da época e propõe novas. Não se tratava de um desconhecimento da técnica,  mas, pelo contrário, era devido a esse conhecimento exagerado que ele precisava de outra forma de se exprimir. Assim, foram aparecendo os planos longos com longas distâncias focais, criando um espaço plano, em alguns filmes (como é o caso, de Il deserto rosso).





Estávamos numa época de transição do preto e branco para a cor, nos filmes de Antonioni e, para ele, essa mudança devia-se ao facto de a cor poder ilustrar melhor o estado emocional de personagens e espaços, mas, para além disso, o do espectador, que viveria mais intensamente o filme.
Ainda assim, também são muitos os temps morts e os espaços vazios, onde são estendidos os momentos inexpressivos das personagens e dos próprios espaços. Em conjunto com a não utilização de música – Antonioni não a achava cinematográfica – e apenas o recurso a sons naturais, que criavam, por vezes, um profundo silêncio, isto dilatava e propagava o tempo, desenvolvendo uma alienação no espectador, semelhante à das personagens.
Durante toda a sua vida, Antonioni nunca se preocupou com a política, os problemas sociais ou outras quaisquer ideologias. O importante era o “espírito” das personagens e a forma de transmitir essa alma que, segundo ele, se tornava pobre caso ele desse ênfase aos outros assuntos que referi. Ele próprio dizia que o seu cinema era um neo-realismo sem bicicleta pois queria retratar a realidade, embora subjectiva, mas de uma forma mais profunda. Enquanto os realizadores italianos andavam obcecados pelo real e pela imagem desse real, Antonioni estava deslumbrado com a realidade invisível das coisas: o filme era visto do exterior, através de pequenos gestos, interacções e organizações no espaço, mas captava o interior das personagens e era só isso que interessava.
Assim, Antonioni tem como temas a fadiga e a incomunicabilidade entre os corpos. A angústia e o cansaço da existência, com personagens alienadas no espaço. Talvez não hajam sequer acções, as personagens limitam-se a viver. Os conflitos da narrativa existem mas não são dadas respostas, apenas feitas perguntas: o cinema de Antonioni é, simplesmente, um cinema de observação.
Mistura os tempos no espaços vazios: a inexpressão, os tempos mortos (seja na imagem como na narrativa) onde se conhecem verdadeiramente as personagens. É aí que elas sentem, é aí que o espectador sente com elas: na sua deambulação nómada pelos seus mundos.




Mais uma vez, estas temáticas e estas deambulações remetem para o tempo. Um tempo diferente entre os espaços e as personagens. Um tempo lento e doloroso, que nos mostra uma sinceridade extrema. Para mim, esse cansaço do corpo que é ele próprio um tempo, tem um tempo próprio: um tempo fora do seu tempo, fora do seu mundo. Esse mundo não pára, está em direcção ao futuro, mas o corpo é, em simultâneo, o passado, o presente e o futuro, nessa deambulação sem limites. Está preso e cansado e movimenta-se por si só. A matéria que nos encorpa fica gasta, morre, enquanto a alma que o sustem deambula sobre o tempo, atravessa-o de uma forma singular.
Mas, independentemente da questão do tempo, os temas são muito ambíguos. Nas palavras de Antonioni: São filmes “sobre nada.. com precisão”[1]. De outro modo, é a partir de imagens claras e acções simples que o realizador fala de coisas profundas e confusas, que se manifestam de forma diferente de espectador para espectador.
Isso acontece porque, como disse, os filmes não tentam dar respostas, pois não é preciso explicar tudo, já que as coisas se limitam a existir. Isso dá-nos uma grande margem de interpretação das coisas e essa interpretação depende de variados factores, como é o caso das nossas características pessoais, a nossa cultura e educação, a época em que vivemos ou o nosso estado de espírito do momento: o contexto. Principalmente, posso dizer que o filme nos mostra aquilo que queremos ver, ainda que involuntariamente.
E todos aqueles conjuntos de imagens cénicas de Antonioni concordam comigo: os espaços vazios, os rostos pouco expressivos e anónimos, a vida que continua sombria num tempo que parece distante (mais uma vez, tudo isto se reflecte indirectamente, para mim, no tempo: um tempo demorado como demoradas devem ser as despedidas, um tempo que reflecte a própria vida que é vivida, aquela que à partida, tendo em conta a nossa cultura, tem um início e um fim). Em Il deserto rosso, o autor utiliza o ovo – com referência afrodisíaca – como símbolo da vida, do re-nascimento; o espaço onde a acção acontece ajuda a descrever a contemplação do ovo – o escape à degradação do mundo. As personagens estão confinadas a um espaço pequeno, apertado e superlotado, onde experienciam um estado de dormência e alienação. Um espaço caracterizado pela cor encarnada, que simboliza, especificamente, na minha opinião, o desejo da carne, a tentação e o poder. É um lugar único num filme onde é proeminente a neblina e o nevoeiro, o fumo e as grandes fábricas cinzentas, sendo estas características simbolizadoras do mundo, da sociedade; um mundo exterior a nós próprios, que um dia será a nossa morte: o que leva à decadência da nossa alma.

Na cena de abertura Giuliana e o seu filho vagueiam pela zona industrial de Ravenna onde o seu marido trabalha. As fábricas e os seus conteúdos são filmados para os tornar precisos, poderosos e inesperadamente belos. Porém, Antonioni, diz que “Em Il deserto rosso, as máquinas, com o fascínio do poder, beleza, e sordidez, têm um enorme efeito, e assumiram o lugar  da paisagem natural. (…) o homem deve moldar e restringir as máquinas à medida de si próprio, e não tentar negar o progresso tecnológico.”[2]





Um filme “não deve impor o significado mas também não deve aboli-lo (...) deixa o caminho aberto para o significado aberto e indeterminado”[3]. Poderíamos dizer que esta impossibilidade de delimitar os sentidos e definições únicas advém do uso de metáforas e simbologias, por parte do autor do filme. É normal que isso aconteça, mas, na minha opinião, somos nós, enquanto espectadores, que as criamos, que nos associamos a determinada imagem ou ideia e daí retiramos determinado sentido simbólico. Isso acontece devido a essa ambiguidade na história e na imagem: as acções do filme são sempre inacabadas, o realizador deixa margem para que este se continue a formar na nossa cabeça, deixa espaço para que nós façamos, também, parte do filme, pois, segundo Antonioni, quando os significados são impostos, o filme perde a sua essência: ele deve vibrar e fazer vibrar, em vez de tentar explicar o inexplicável.
Mas aquilo a que nos cabe fazer parte não deve ser intelectual. Em vez disso deve limitar-se aos sentidos. Basta que os significados estejam inerentes, de uma forma inconsciente, para que essa passagem para o mundo da tela se faça.

Antonioni pede-nos para não pensarmos, mas para apenas sentirmos. E é por isso que eu penso que toda a gente se identifica com ele, mesmo tendo passado mais de 50 anos do início da sua carreira: os filmes são tão especiais que continuam a envolver-nos mesmo com as personagens, são tão únicos que não os vemos simplesmente como forma, mas sim como um todo bem delineado mas que não sabemos identificar.
Mas será que existe mesmo realidade ou apenas uma representação recriada, de acordo com as diferentes interpretações que fazemos, das quais falei anteriormente? Para mim, o filme reflecte também uma interpretação da vida, do que para nós é naturalmente óbvio e viciosamente simbólico.
Ele é tão complexo que se torna impossível representá-lo com sistemas simples. Tal como as interpretações que fazemos, a verdade é subjectiva, está em constante mudança e tem a ver com as nossas características. E, neste caso, com as do realizador: a forma como filma é sempre um espelho de si, da forma como vê o mundo e como o quer mostrar. Aquela fábrica, o fumo e até o fogo representam, de acordo com a minha perspectiva, a morte, a decadência, a vontade de morrer e o “morrer por dentro”, em oposição a objectos, cores e personagens que são utilizados como indicadores de esperança ao longo do filme: momentos esporádicos de vida em todo aquele limbo. Esse mundo também é subjectivo pois faz parte dessa realidade pessoal e única que só cada um de nós conhece: o filme é, então, um misto de verdades parciais e subjectivas, numa união entre realizador e espectador.

Antonioni era observador exímio que sabia sentir o que via, em vez de apenas ver, por isso as suas personagens eram observadas do exterior mas interpretadas a partir do interior. Talvez seja essa a razão de as percebermos tão rapidamente, apesar da ambiguidade que transmitem: elas são verdadeiras, mesmo numa realidade subjectiva. Os barcos, a noção de horizonte e o mar, no meu entender, simbolizam, em relação à personagem principal, Giuliana, a solução para acabar com todo o medo do estado que é estar vivo e  consequentemente morrer: evadir daquele mundo terrível.
O espírito destas personagens é visto pela sua expressão, sendo que cada simples gesto consegue levar o filme a um patamar superior: o filme é feito não de acções de personagens mas de expressões das mesmas.
Desta forma, os actores eram vistos como objecto nos filmes. Não de forma depreciativa, pois o que Antonioni queria era que fossem espontâneos e não metódicos, mas “o actor não precisa de compreender, só precisa de existir”[4]. A ideia é que sintam por eles mesmos, que estejam num estado de virgindade, quando chegam ao plateau, em relação às personagens, que não pensem pelas personagens, mas sintam por si próprios.




Ele tinha noção de que a verdade está sempre em constante mudança, de acordo com os desejos e sentimentos do homem, por isso não tentava impor significados: fazia-o através de imagens claras, todavia formando um conjunto ambíguo. Todo o contexto/ambiente do filme, como os barcos e o nevoeiro, todas as relações estabelecidas entre Giuliana e as outras personagens, e claro, o impacto que essas têm nela, sugerem que a personagem principal está sob tortura psicológica, implementada por ela mesma: ela sabe como fugir e deseja-o loucamente, no entanto não consegue fazê-lo, a vida e os aspectos que estão intimamente relacionados, são a sua âncora.
Antonioni era, também, frágil. Isto porque enfrentou a vulnerabilidade, ou seja, como um verdadeiro artista, construía o seu próprio caos de criação das obras, através de um espaço háptico[5] - “Eu quero pintar o filme como um pintor pinta a tela; quero inventar as relações de cor, não me quero limitar a fotografar apenas as cores naturais”[6], num desejo de “escapar da dificuldade de um compromisso moral e estético, do desejo obsessivo de se expressar.”[7]
Antonioni era, para além de artista, um artista do tempo. Um tempo que reflecte a própria vida que é vivida. Um tempo certo, um tempo que tem razão de ser.
Ainda assim, Antonioni não tentou ser artista: As obras que realizou não foram premeditadas como arte, foram premeditadas como vidas. Alguns dizem que são filmes em que nada acontece mas, mesmo assim, conseguem, ainda hoje, cativar o público, ao contrário de filmes mais recentes que se enganaram na conjugação do tempo com os outros elementos. Se calhar é tudo uma questão de vida, se calhar é tudo uma questão de tempo...
Um cinema perfeito e apaixonante que nos consome. Mais ninguém será o mesmo depois de olhar para a sua poesia: um poeta, um poeta das imagens, dilatando e propagando o tempo em si.






“... fazer um filme, para mim, é viver.”
Michelangelo Antonioni









[1] Brunette, Peter, The films of Michelangelo Antonioni, pág. 157, nota 21
[2] por Antonioni, em Chatman, Chatman/ Duncan, Paul, Michelangelo Antonioni a filmografia completa, pág 89
[3] por Antonioni, em Chatman, Chatman/ Duncan, Paul, Michelangelo Antonioni a filmografia completa, pág 15
[4] Antonioni, Michelangelo, Riflessioni sul attore, L’Europea Cinematografica
[5] conceitos de Gilles Deleuze:
- o espaço háptico é um “espaço óptico tactil”, ou seja, através do olhar o artista consegue sentir ao extremo aquilo que vê
- o caos artístico consiste numa simbiose do artista com a obra artística, antes da sua realização física. É daí que advém a força da criação – a obra passa a ser também corpo do artista.
[6] Strick, Philip, Antonioni, Londres, 1963, pág. 7
[7] folheto da RAI distribuído com o filme “Il mistero di Oberwald”, pág. 3

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


Raquel André em palco

COLEÇÃO DE AMANTES
Criação de Raquel André e parceria
Festival Temps d’Images e LEFFEST
No Teatro D. Maria II
Sala Estúdio, M/16

De 16 – 22 Novembro 2017












”...Ricardo, André, António, Manel, Carminho, João, Pedro, Yara, Breno..., Joyce, Claudete, Luísa... Maria, Mariah, Mariah, Rafael..., João, João, João, Tiago, Tiago, Tiago...”
Raquel André já colecionou 137 amantes, desde 2015 até esta data. Mas deixa-nos a certeza da infinidade da sua coleção, como a modo da sua vida quando nos matematiza que são, ainda, só “0,0007142857143% da população do mundo”. Uma coleção só limitada pela presença física da autora.
No prelúdio de 9 minutos da performance, a Colecionadora enumera nomes dos seus amantes, acompanhada de um som de fundo frio, ecoante e metálico; luzes, que pontualmente acendem, num ambiente de estudo/ tubo de ensaio; a sua voz doce/ quente domina o espaço e a nossa atenção, por vezes com humor e frescura, mas questionando-nos dos limites e dos adornos das intimidades. Também nos conta histórias/ descreve momentos que provocam comoções e das quais nos sentimos íntimos.
Como guardar estes pequenos gestos... Este encontro único?” Raquel propõe-nos que tiremos uma fotografia/instantâneo que comprove a nossa intimidade como grupo, certificando-nos que somos agora parte da sua Coleção de Espetadores - Coleção de Encontros com o Público.
“O que é ser o único de alguém? A memória do nosso encontro... Intimidade é permitir... O que é querer tudo de alguém? O que queres guardar de mim?”
Antes do fim desta intimidade, deixa-nos com momentos visuais e diálogos muito intensos que acalmam num som melódico, crescente, envolvente, intenso e estonteante... e se desvanece com uma nuvem de fumo branco que dá lugar às palmas do público.

Dou comigo a pensar que cada um de nós é um potencial colecionador, impregnado, em ato, de intimidades que escrevem a história da nossa vida.
Intimidades, algo que todos nós colecionamos. 


André,Raquel (2017). COLECÇÃO DE AMANTES / COLLECTION OF LOVERS VOL.1 2014-2016. Coedição: TNDM II & Festival Temps d’Images. ISBN 978-972-9332-70-8



quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O LIVRO TÁCTIL

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras
Livros, Caetano Veloso


Estava há já algum tempo para visitar a exposição de Livros de Artista patente no átrio da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, coisa que só fiz agora recentemente. Estava longe de saber que esta visita me levaria a uma pequena viagem, ainda que muito superficial - porque os muitos afazeres e o pouco tempo não se compadecem com explorações mais profundas - ao maravilhoso mundo do livro objecto ou, como é da gíria, do Livro de Artista. A visita à exposição per si, pela reduzida dimensão da amostra, serviu apenas como um pequeno aperitivo à exploração deste tema, contudo abriu todo um manancial de hipóteses exploratórias para futuros trabalhos de investigação e pesquisa nesta área da edição de autor.

Projecto LivrObjecto - Anatomia e Arquitectura

O projecto LivrObjecto, organizado por Inês Correia, consiste na apresentação de alguns trabalhos de artistas plásticos, designers gráficos e outros criativos, que abordam o tema livro enquanto objecto que proporciona uma experiência visual e táctil, dando maior ênfase à sua dimensão material. Este projecto tem tido várias vertentes expositivas e de acolhimento por parte de diversas entidades como a Biblioteca dos Olivais, a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, a Galeria Diferença, a Biblioteca de São Lázaro e da Fábrica do Braço de Prata. Ao longo de 8 meses, de Setembro de 2017 a Abril de 2018, houve e haverá lugar, nas diversas instituições de acolhimento, à realização de instalações, palestras, exposições, leituras, workshops e também algum cinema.
Para mais informações sobre este projecto, podem consultar a sua página em https://livrobjecto.wordpress.com.
Ora, foi precisamente a vertente de acolhimento deste projecto por parte da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian que visitei.

Livros de Artista da colecção da Biblioteca
de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian

Convidada a participar neste projecto, a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian organizou uma mostra de alguns exemplares bibliográficos da sua colecção de Livros de Artista que conta, desde a sua criação na década de 90, com mais de 500 exemplares no seu acervo.
No texto de apresentação desta exposição pode ler-se:
LivrObjecto - Anatomia e Arquitectura
O Livro de Artista, enquanto LivrObjecto, parte de um vocabulário conceptual que faz dele um item bibliográfico. Porém, pela sua conformação, ele torna-se um espaço habitado não só pelo artista, mas também pela sugestão física que este deixa para o leitor, permitindo-lhe fazer da leitura uma experiência visual e táctil, em que o conteúdo é o consubstancial à escolha de materiais e à sua forma.
O LivrObjecto - Anatomia e Arquitectura é um projecto exploratório que pretende evidenciar a experiência material do LIVRO enquanto objecto imaginado, projectado e realizado por artistas a partir de autoedições, publicações independentes, livros únicos, ou de reduzidas tiragens, e mesmo de livros já publicados, mas alterados pela sua visão criativa.
Inês Correia, 2017
Esta pequena mostra de Livros de Artista teve duas fases:
  • A primeira decorreu entre 3 de Outubro a 13 de Novembro, onde esteve em exposição uma vitrine colectiva com os trabalhos de Isabel Baraona, Rafael Faria e Sara&André; David Gonçalves, Eduarda Rosa, Hélder Gorjão e Carla Rebelo; Bela Silva e Catarina Leitão. Esteve também exposto numa vitrine individual o trabalho de Irene Buarque (n. 1943) intitulado “Ventura e Desventura de uma Janela Objecto” (2017);
  • A segunda fase decorre desde o dia 15 de Novembro e conta igualmente com uma vitrine colectiva onde estão expostos os trabalhos de Leonor Antunes; Rosário Rebelo de Andrade; Rui Horta Pereira; Catarina Alves Lopes; Cristina Filipe; Luíza Neto Jorge e Jorge Martins. Na vitrine individual, substituindo o trabalho de Irene Buarque, está o trabalho “Livro de Viagem” (1984-1985), do escultor Carlos Nogueira (n. 1947).

Livro de viagem

Como já referi, a peça central desta segunda fase da exposição patente no átrio da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian intitula-se Livro de Viagem - um livro-escultura de Carlos Nogueira, artista plástico nascido em Moçambique em 1947.
A sua formação passou pelos estudos de escultura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto e de pintura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa.
Além do trabalho escultórico que tem vindo a criar ao longo dos anos Carlos Nogueira tem sido o autor dos catálogos das suas exposições individuais e também do desenho gráfico de catálogos e monografias de algumas instituições como a Cinemateca Portuguesa, o Museu Nacional de Etnologia, o Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa, o Museu da Cidade da Câmara Municipal de Lisboa e a editora Livros Horizonte.
Mais informações sobre o seu percurso e trabalho artístico podem ser consultadas em https://carlosnogueira.com.


A peça de Carlos Nogueira presente nesta pequena mostra de Livro de Artista

Livro de viagem / Carlos Nogueira
Autor: Nogueira, Carlos, 1947
Produção: [Lisboa] : C. Nogueira, (1984-85]
Descrição Física: 36,5x40,5x31,5cm
Livro de artista/escultura em madeira, ferro, tela e cartão; capa em placa de madeira pintada de branco com uma peça em feno com uma base de onde saem duas vezes seis espigões, que por sua vez, cada seis, define um plano e, em relação ao tamanho, uma linha; interior com duas folhas em tela pintadas a branco; tela e ripas de madeira pintadas em acrílico preto coladas nas guardas; contracapa em placa de madeira pintada de branco com uma peça de suporte em madeira pintada a preto.

A propósito desta peça, Inês Correia, a mentora do Projecto LivrObjecto - Anatomia e Arquitectura escreveu:
Este livro de viagem, enquanto momentum na organização da matéria, surge da convergência improvável de elementos naturalmente dispersos. A sua existência plena deriva da observação de sintonia entre linhas, planos e ângulos, face ao peso, contra-peso e vazios. Enriquecida pela perturbação, que o tempo lhe confere, essa sintonia mutante elege, suporta e veicula um registo mudo…é pois, no silêncio táctil, que nos oferece a leitura das sombras, tão familiar quanto a das paredes caiadas.
Este livro-objecto permite reconhecer a gramática escultórica do artista, e conquista lugar na filologia da sua vasta obra. Numa linguagem que lhe é própria, revela-se na ocupação do espaço, na criação dos volumes, na disposição das superfícies e na construção do imprevisto
Dentro do livro, deambulamos na multiface do bifólio branco e único, de um branco autêntico, que só o negro contíguo revela.
Fora do livro, continuamos nele por nos demorar o olhar, fixo sem dor, nos espigões de uma outrora escala de piano. Talvez seja um título dissonante - desses que nos inquietam os dedos e os medos e nos fazem procura na contra-capa uma outra dimensão, ou acolhimento. Encontramos sim o contraforte, austero e generoso como um patriarca, aposto na verticalidade do plano, a garantir a estabilidade hierárquica das partes e do todo.
O Projecto LivrObjecto - Anatomia e Arquitectura, reconhecendo o território exploratório desta obra, fica enriquecido pela experiência visual e diálogo conceptual, que a sua exposição temporária vem possibilitar.
O Livro de Viagem de Carlos Nogueira, com a singularidade de um livro aberto, e sobretudo um objecto em aberto… materialmente, em trânsito… imaterialmente, disponível.
Saí desta exposição com uma ideia diferente acerca daquilo que pode ser um livro objecto, principalmente pela impressão deixada pela obra do artista plástico Carlos Nogueira, com este seu livro que desperta, enquanto experiência, vários sentidos. Ainda que não tenha tido a possibilidade de tocar a obra em questão, o olhar passeou-se pelas texturas e jogos de planos de luz e sombra, despertando um imaginário arquitectónico que encontramos num Portugal antigo, desordenado e clandestino, nas suas construções de pedra, cal, ferro e madeira - uma viagem.
Com os dados que retirei na exposição, fiquei com curiosidade em saber se existiriam outros Livros de Artista de Carlos Nogueira, ou se este teria sido um trabalho único.
 

Paisagens das terras do monte e da pele

Foi no seu site que descobri várias outras peças realizadas na mesma época (entre 1984 e 1985) e que, no seu conjunto, deram origem à exposição “Paisagens das terras do monte e da pele” que teve lugar na Galeria Diferença, em Lisboa, entre 21 de Janeiro e 16 de Fevereiro de 1986.

À época foram expostas as seguintes obras:
  • as portas dos rios te estão abertas;
  • o livro do céu diurno;
  • o livro do céu noturno;
  • o livro do mar diurno;
  • o livro do mar noturno;
  • o livro de viagem;
  • as nuvens são como as nuvens do céu, até ao fim das terras todas.

Terá sido, muito provavelmente, desta exposição que saiu o exemplar que está agora presente na mostra de Livros de Artista e que faz parte do acervo da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian. No site do autor não encontrei mais nenhuma referência a este trabalho para além destas fotografias, da autoria de Paulo Costa, de alguns dos livros expostos e a informação de que existirá/existiu um catálogo da exposição com a seguinte referência: Paisagens das terras do monte e da pele, Lisboa, Galeria Diferença, 1986 (textos: Carlos M. Couto S. C., José Manuel Fernandes, José Teixeira). Foi a única informação que consegui encontrar.




Sem que tenha lido uma única palavra impressa, estes livros comunicaram essa experiência de viagem, iniciada com o primeiro livro visto na Gulbenkian, de uma forma multi-sensorial, através das formas e materiais escolhidos pelo autor, que continuou a transportar-me nessa memória que reconhece e evoca paisagens revisitadas em antigos passeios.

Todo este processo que se iniciou numa visita à exposição proposta pelo Projecto LivrObjecto - Anatomia e Arquitectura e que culminou no conhecimento destes trabalhos de Carlos Nogueira, confirmaram uma vez mais a evidência de que nem só de palavras vive um livro e que há outras formas que podemos recorrer para nos deixarmos transportar - basta estarmos preparados para a viagem que nos é proposta.

O nosso tempo


“Deus está morto!”
Assim falou Zaratustra -  Friedrich Nietzsche





“É preciso ser superior à humanidade em força, em altura de alma – em desprezo…”
 O Anticristo -  Friedrich Nietzsche






 O nosso tempo


 “E se a nossa história – toda a história humana – narrasse uma perseguição, perseguição imparável que exprime uma busca íntima? “ [1]

            O tempo é um instante. O tempo é um tempo; o tempo somos nós.
Talvez Bauman [2] identificasse de imediato o parágrafo anterior sendo referente aos líquidos, à sua expressão de modernidade líquida, dotando-os de uma característica temporal inata, ao mesmo tempo que personaliza os sólidos sem significação do tempo. Aos líquidos “o que conta é o tempo, mais do que o espaço que lhes toca ocupar”[3]Aos líquidos o que realmente importa é a perseguição do tempo; a sua perseguição.
Com o advento do cinema foi-nos dada a possibilidade de perseguirmos a nossa imortalidade, de não ficarmos sólidos, estáticos, imóveis, parados, apenas perseguindo uma entidade quer divina, quer política. Acabou a corrida desenfreada ao espaço, acabou a perseguição a um Deus que com os tempos se tem observado que mais não foi do que um dínamo para o ódio e para a perseguição alheia. Esse tipo de perseguição patrocinado apenas por agentes estáticos, os sólidos.

“E se a nossa história – toda a história humana – narrasse uma perseguição (…)? “

            A perseguição cansou-se de ser feita a uma entidade plena ou definitiva que causava a morte da Humanidade. A possibilidade que o cinema levantou foi apenas a possibilidade de análise temporal, a compreensão que não há um sujeito que se persegue, mas que a fuga do Homem passou a ser o tempo. O nosso percurso enquanto civilização só conseguirá mudar quando deixar de haver a dicotomia entre presa e predador. Os líquidos passam a ter a ferramenta mais poderosa, o tempo.
  
A identidade

            No fim de definirmos que o tempo passa a ser nosso, abalamos de imediato todas as verdades Universais, passamos a ser donos da nossa verdade. Cada um com a sua pequena verdade, muitas vezes contraditória entre si, mas haverá indivíduo mais democrata que este? Alguém que é capaz de analisar, ouvir e discutir todas as verdades em vez de tentar impor a sua verdade a toda a gente. Um líquido, a ser um líquido.
            A “crise de identidade” e o sujeito desfragmentado referido por Stuart Hall [4] passa a ser uma não questão, pois não podemos olhar para um novo paradigma social com os olhos de um sólido, apenas um líquido sabe o que é fazer parte de um rio ou de um oceano. Se é considerado um desfragmentado devido à sua classe, género, sexualidade, etnia, raça ou nacionalidade é porque em tempos houve a necessidade dos sólidos catalogarem este mundo e o outro. Uma catalogação exaustiva a roçar os limites da liberdade individual.

“Busca da qualidade de vida, paixão da personalidade, sensibilidade extrema, desafeição dos grandes sistemas de sentido, culto da participação e da expressão, moda retro, reabilitação do local, do regional (…)” [5]

            Será que em algum destes pontos se encontra uma fraqueza? Quem não quer encontrar qualidade de vida, personalidade, sensibilidade e participação? No que diz respeito à reabilitação do local e do regional tem muito que ver com a dimensão geopolítica, sendo que a minha pequena verdade, como cidadã portuguesa, é que essa vontade é bastante esbatida com a oferta cultural centralizada nos grandes centros, como Lisboa e Porto. 
            É verdade que como Gilles Lipovetsky também afirma “A sociedade pós-moderna é a sociedade em que reina a indiferença em massa.”. Essa indiferença não se deve ao cultivo do tempo individual, acho que se deve às instituições públicas e privadas que não acompanham os líquidos. Aceito que talvez nunca tenha havido uma crise de identidade tão grande, mas também nunca houve uma abertura tão grande da sociedade em tudo; psicólogos, psicanalistas, etc… tentam que nos esvaziemos. Os líquidos ainda não tiveram consciência de si, viram barragens a serem construídas, fábricas a poluírem os seus caudais, mal os líquidos passaram a ser líquidos foram aprisionados pelo pensamento dos sólidos. O mundo começou por ser líquido, mas à medida que as leis e a deturpação “do bom selvagem”[6] tomavam lugar, os movimentos tectónicos geraram grandes cordilheiras de agentes sólidos, como aqueles que vimos no início do século passado.
            As revoluções a que Bauman assiste e relata como as revoluções que deram origem à modernidade líquida, apenas foram revoluções políticas. Acredito que ela tenha nascido daí, mas também assisto e sinto que a modernidade líquida está incompleta, a revolução deveria ter sido cultural acima de tudo. Hoje, neste meio assisto a essa modernidade como parte integrante dela, e acho que esse ponto me dá vantagem e me deixa ir ao fundo dos oceanos. Alguns sólidos caíram e muitos deles ainda vão continuar aí, o que os líquidos ainda não aprenderam é a valorizar-se, um rio tem muito mais força que um muro! Como diz o velho ditado: “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura!”.  Há que despoluir as águas, o pensamento não tem que correr num só sentido, mas tem que ser limpo, tem de ser claro e natural.
  
A sociedade

“Este mundo é um lugar de labuta. Que azáfama! Sou acordado todas as noites pelo arquejar da locomotiva. Isso interrompe os meus sonhos. Não existe sabat. Seria magnífico ver a humanidade, por uma vez, desfrutar do lazer. Já só há trabalho, trabalho e mais trabalho. Já não é fácil comprar um caderno liso para escrever as minhas reflexões; agora são quase todos pautados para inscrever os dólares e os cêntimos.”[7]

É com este tipo de filosofia que os líquidos são tidos como modernos, não obstante que a sua inspiração tem raízes românticas, fins do séc. XVIII, onde talvez muitos “sólidos” europeus se viram no fio da navalha ao ler pela primeira vez Werther de Goethe [8]. E não foram tão ou mais românticos que os ditos líquidos modernos?  Só que nessa altura a revolução foi cultural, tornando o Homem mais seguro de si, das suas convicções, apoiado num pensamento da época .
As correntes do estado novo, não propriamente em Portugal, mas de todas as opressões que tiveram lugar na Europa e no mundo deixaram uma nuvem no ar e na água, de tal forma densa que ninguém, nem mesmo os líquidos, os sólidos, os líquidos com pretensões a sólidos ou os sólidos com pretensões a líquidos conseguiram vislumbrar que as reformas a seguir ao nosso 74 caíram apenas no domínio politico, não conseguindo ser extrapolado para a dimensão social ou cultural, infelizmente.
O mundo continua nesta fase de transformação que não cai nem para um lado nem para o outro, encontra-se em cima do muro. Por um lado, os líquidos são muitos, mas estão de olhos vendados face aos anos de poluição e às barragens que lhes construíram, quer no sistema de educação antiquado ou ao sistema capitalista que desviou a cultura para uma vertente de “cadernos pautados apenas”; por outro estão os sólidos, que poucas soluções arranjam, obstruem o caminho dos líquidos e tiram partido das águas poluídas.

“Se um homem passear nos bosques por amor a estes durante metade de cada dia, arrisca-se a que o vejam como um mandrião; mas se passar todo o dia em atividades especulativas, arrasando as florestas para tornar a terra nua antes de tempo, será considerado um cidadão diligente e empreendedor. Como se o único interesse que uma cidade tivesse nos seus bosques fosse cortá-los” [9]

            Voltando ao cinema, o que se começa a passar nestes novos tempos, onde existe uma modernidade líquida em défice de “bem-estar social”, não poderia ser ultrapassado por qualquer narrativa fantástica. A crescente extrema na europa, um presidente de Hollywood numa das grandes superpotências mundiais, mostra bem que o mundo começou a polarizar-se. Talvez esta guerra entre sólidos e líquidos esteja a ir longe demais. Se identificarmos os sólidos exclusivamente como detentores de um sistema capitalista, onde não lhes importa a cultura, mas sim o lucro que provém disso, direta ou indiretamente, como o controlo dos líquidos via entretenimento. O vislumbre de um “Admirável Mundo Novo”, com certos traços de “1984” sem dúvida, mas na sua essência o “Nós” de Zamyatine aponta-nos para a dificuldade de haver uma sociedade perfeita, onde um personagem chora pela primeira vez ao não conseguir calcular a raiz quadrada de menos um.
            Estas ondas de populismo, vêm por parte de indivíduos “sólidos” radicais e por parte de “líquidos” que não estão informados necessariamente e que o seu ego está preso algures numa barragem, não conseguindo ter nascido com a cultura do seu lado, com o apoio da corrente ou com o espírito crítico que nasce de dentro. Os sólidos que conhecem demais o mundo e os líquidos que não fazem a mínima ideia, estão de mãos dadas e a empurrar a modernidade para um lugar estranho e sombrio.

Conclusão

            Devemos apontar soluções em vez de apenas registarmos os traços gerais da sociedade e do indivíduo e de criticarmos o que nos rodeia para que assim possamos contribuir para um mundo melhor.
            Se os líquidos estão descontentes com as políticas ou até indiferentes, talvez seja a altura de pensar num modelo de democracia mais direta e menos representativa, onde haja espaço para as revoluções culturais e socias que faltam existir; contribuir e investir para uma modernidade mais consciente de si, mesmo com o culto do lazer, fazer distinguir entre entretenimento e arte, no cinema por exemplo, falo das diferenças de um filme hollywoodesco e de um filme independente. É necessário que estes “tempos” que aí vêm sejam vistos e revistos, que se aprenda com os pequenos erros e com as pequenas verdades individuais; é um excelente tempo para que os líquidos e os sólidos conscientes consigam derrubar as barragens e muros do pensamento e encontrar o oásis da inclusão. Não vivemos num mundo exclusivamente destes dois elementos, existem muitos mais, até transformações são possíveis, passar de líquido a gasoso ou de sólido a líquido, mas não quer dizer que um vence sobre o outro, quer dizer que aprenderam com as pequenas verdades de cada um e consequentemente a viver em simultâneo; e é dessa transformação que é feita o mundo, desde que seja consciente e livre, claro.    


“Tenho a esperança de que venceremos. Mais do que isso, tenho a certeza de que a vitória é nossa. Porque a racionalidade tem que triunfar.”[10]







Bibliografia

FRIEDRICH NIETZSCHE, 2008, Assim falou Zaratustra, Publicações Europa-América

FRIEDRICH NIETZSCHE, 2000, O Anticristo, Relógio de água

 TOMÁS MAIA, O Olho Divino, 2016, Beckett e o Cinema, Documenta

ZYGMUNT BAUMAN,  Modernidade Líquida, « Pág. 8.»

STUART HALL, [1992] 2003, A identidade em Questão, «pp. 7-22»,. Rio de Janeiro, DP&A Editores 
LIPOVESTSKY, 1989, A Era Do Vazio, «Pág 12»

HENRY DAVID THOREAU,2016, A Vida sem Princípios, «pág.20/21», Antígona

ZAMIATINE, 2004,«pág.274», Nós, Antígona





[1] “O Olho Divino – BECKETT E O CINEMA” Tomás Maia 
[2] Zygmunt Bauman (1925/2017) Autor e escritor da obra “Modernidade Líquida 
[3] “Modernidade Líquida” Pág. 8. Zygmunt Bauman  
[4] Stuart Hall, [1992] 2003, “A identidade em Questão”, A Identidade Cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP&A Editores, pp. 7-22. 
[5]A Era Do Vazio”. Pág 12 . Gilles  Lipovetsky (1989) 
[6] O bom selvagem ou mito do bom selvagem é um personagem modelo ou tópico literário na literatura e no pensamento europeu da Idade Moderna, que nasce com o contacto com as populações indígenas da América.Trata-se de casos nos quais escritores colocavam o homem em primeira opção, em lugar de Deus.” - https://pt.wikipedia.org/wiki/Bom_selvagem 
[7]  [9] “A Vida sem Princípio” pág.20/21 – Henry David Thoreau 
[8] O romance é escrito na terceira pessoa e com poucas personagens. Após a sua primeira publicação, em 1774, teria ocorrido, na Europa, uma onda de suicídios, atribuída à influência do personagem de Goethe, e que foi chamada "efeito Werther". - https://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Sofrimentos_do_Jovem_Werther
[10] “Nós” pág.274 - Zamiatine