domingo, 3 de janeiro de 2016

Um círculo em escape à "modernolatria"



Sonia Delaunay (1885-1979)
Auto-retrato, 1916
Guache sobre papel
Col. CAM - Fundação Calouste Gulbenkian


Mariana Oliveira

A exposição intitulada “O círculo Delaunay”, patente no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, apresenta-nos o universo do casal Robert e Sonia Delaunay, num período fulcral das suas vidas – o das “férias grandes” –, a passagem por Portugal, a terra da “luminosidade violenta”. Nesta sua estadia pelo norte de Portugal, entre 1915 e 1917 em Vila do Conde, o casal Delaunay vai por em prática a sua pintura simultânea. O "simultaneísmo" consiste na teoria desenvolvida por Michel-Eugéne Chevreul[1] (1786-1889) de que a perceção visual das cores se modifica quando existe uma justaposição de cores complementares, parecendo mais intensas do que quando estão isoladas. Mais do que isto, os discos simultâneos ou órficos (termo mais conhecido), presentes nas criações artísticas de Robert e Sonia, são, antes de mais, uma captação “do dinamismo próprio da luz”[2]. Não podendo esquecer o contexto histórico - a vida moderna, a industria cultural – em que estavam inseridos, Robert e Sonia, vanguardista assumidos, encontram em Portugal, no seu tempo de refugio à deflagração da 1ª Guerra Mundial, uma escapada à “modernolatria”[3]. Escapulida com mais intervenientes importantes para a formação do círculo, em que faziam parte o nosso casal e os nossos amigos portugueses Amadeu de Souza Cardoso, Eduardo Viana, Almada Negreiros. 

A belíssima curadoria de Ana Vasconcelos não nos deixa ficar sem expetativa do que será o deslumbre desta exposição, desafiando-nos, logo à partida, com a apresentação da reprodução, em escala real, da pintura mural Portugal realizada para a Exposição Internacional das Artes e das Técnicas, no Palácio dos Caminhos de Ferro de Paris, em 1937. Esta receção, evidente no Hall que antecede a galeria das exposições do CAM, quente e estrondosa, dá-nos a primeira sensação “simultânea” deixada por Portugal a Sonia e Robert, completada com um registo pictórico de Eduardo Viana - “A Piteira” -, e fazendo referência direta à relação ativa entre ele e o casal.
A exposição continua no piso 1 e apresenta-nos, primeiramente, algumas das incríveis pinturas resultantes desta estada em Portugal, como se de uma capa de um álbum se tratasse – mais uma pequena provocação ao visitante que se empolga a querer desvendar este círculo embrenhado de luz e cor. Os pequenos apontamentos - as diferentes manifestações artísticas – que nos vão surgindo, revelam-nos os projetos, os lugares e os vários participantes deste “círculo órfico”. A viagem pode começar à mercê do visitante dado que, a dinâmica da escolha curatorial assim o permite, e é impossível não ficar maravilhado por todas estas propostas vibrantes. A “vida simultânea” é experienciada aqui na sua plenitude, tanto pelos artistas que formam este círculo como pelo espetador. Sonia Delaunay aparece-nos como protagonista desta dinâmica, e não podia haver melhor exemplo que o auto-retrato que deixo, aqui, por opção pessoal, como ilustração desta exposição. Arte e vida é a mensagem deixada como duas coisas indivisíveis. 

Esta viagem pode ser experienciada até dia 22 de fevereiro e ainda ser complementada como uma visita à sala arquivo, que nos permite visualizar cronologicamente as relações dentro deste círculo embrenhado na vibração popular e na sede de criar simultaneamente.


[1] Publicada em 1839 sob o título Da lei do contraste simultâneo das cores [...]
[2] VASCONCELOS, Ana [et al.], O Círculo Delaunay, Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian. CAM, 2015. ISBN 978-972-635-309-6. p. 19
[3] Idem, p. 16.

RELATÓRIO DAS II JORNADAS DOS MESTRADOS EM ENSINO



RELATÓRIO DAS II JORNADAS DOS MESTRADOS EM ENSINO

Leonor Wagner Alvim 

 
As Jornadas dos Mestrados em Ensinos têm como objetivo proporcionar à comunidade académica dos Mestrados em Ensino da Universidade de Lisboa, uma oportunidade de reflexão sobre questões atuais da educação e da formação de professores. Promove a divulgação de trabalhos e troca de experiências entre alunos recém-diplomados; contribui para a integração dos alunos recém-ingressos no curso, dando a conhecer diversas problemáticas que lhes estão associadas e as experiências de docentes, alunos e professores cooperantes. Por fim, pretende contribuir para a criação de uma identidade dos cursos do Mestrado em Ensino da Universidade de Lisboa.
A participação, neste encontro, pode ser feita através da exposição de trabalhos de alunos dos mestrados, recém-diplomados ou finalistas; e/ou através da assistência aos trabalhos, sendo esta destinada a toda a comunidade académica.
As II Jornadas foram realizadas no dia 6 de Novembro, no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.
Deu inicio ao ciclo de conferências a Professora Manuela Esteves, com a Conferência Plenária “O lugar da prática profissional na formação inicial de professores”.  A professora demonstrou a importância que a pratica de ensino supervisionada tem na formação inicial de um(a) professor(a), afirmando que esta é a componente central da sua formação.
Trata-se de um tempo de descoberta, exploração, sobrevivência e de por à prova. Deve incorporar funções na sala de aula, na escola, no sistema educativo e a sociedade. Os alunos necessitam de ter a oportunidade para observar e interpretar situações educativas, de fazer planificações, de as por em pratica, avalia-las, de identificar problemas, de pesquisar, comunicar e de trabalhar em equipa.
A pratica de ensino supervisionada faz a articulação real e produtiva, quer entre as diversas componentes da formação, quer entre os supervisores da instituição de ensino superior, os orientadores cooperantes das escolas onde se realizam os estágios e os formandos. O professor necessita de por em pratica os seus conhecimentos, fazendo a ligação entre o conhecimento e a ação em contexto, sendo esta feita em situações concretas de trabalho proporcionadas nos estágios. A pratica profissional é, ou deveria ser, considerada a componente central da formação de professores.
Terminada a comunicação da professora Manuela, os participantes dirigiram-se ao átrio do Instituto de Educação para observar a Exposição de trabalhos realizados ao longo do ano lectivo anterior.
De seguida, teve inicio o painel: “O papel do relatório na iniciação à pratica supervisionada” .
A primeira comunicação, “Um longo caminho para chegar a bom porto” de Teresa Braga e Cecília Galvão centrou-se no processo de trabalho ao longo do mestrado que culmina no relatório final. Foi uma comunicação muito útil para quem está na fase de iniciar o relatório, pois deram dicas e conselhos sobre as fases que irão passar, falando sobre as dificuldades e obstáculos a enfrentar e qual a melhor maneira de ter um final de semestre mais tranquilo.
Na segunda comunicação, “O relatório da prática de ensino supervisionada no mestrado em ensino da história e da geografia: especificidades de um modelo bidisciplinar”, Marco Godinho e Maria Helena Esteves deram a conhecer como é que o Mestrado em Ensino da História e da Geografia está organizado, como é preparado o relatório e as suas diferenças em relação aos outros Mestrados em Ensino. A maior diferença, visto este ter um modelo bidisciplinar, é que o trabalho começa por ser ensaiado na perspetiva da História e perspetiva da Geografia. São realizados relatórios em separado para cada uma das disciplinas, pois é assim que as disciplinas existem no sistema educativo português no 3.º ciclo do ensino básico e no ensino secundário.
A intervenção pedagógica é feita em ambas as disciplinas, 5 tempos de 90 minutos em História e outros 5 tempos de 90 minutos de Geografia, mas para o relatório final o candidato a Professor deixa cair todo o trabalho desenvolvido no âmbito de uma área científica para apresentar apenas a outra. O relatório final é disciplinar.
Marco Godinho e Maria Helena Esteves falaram ainda sobre as dificuldades sentidas e as principais aprendizagens que retiram da realização do relatório final. Por fim deram a conhecer que o modelo bidisciplinar foi substituído por um modelo disciplinar em direta relação com a concretização destas áreas científicas no ensino básico e secundário. Todos os estudantes que procurem prosseguir a sua formação na área do ensino da História ou da Geografia devem agora fazê-lo apenas numa das áreas disciplinares.
A ultima comunicação foi feita por Elisa Mendonça e Sandra Henriques e intitulada “A minha arte é ser eu”. Começaram por explicar que o título desta comunicação deu nome à exposição de trabalhos sobre autorretrato e autorrepresentação, realizados por uma turma do ensino secundário público no ano letivo de 2013/2014. Constitui também uma referência ao processo de construção da identidade de um novo professor de artes através do relatório sobre a prática profissional. Este foi um trabalho desenvolvido no decurso do acompanhamento da turma, e realizado com um conhecimento profundo dos contextos singulares dos alunos e das dinâmicas particulares que ocorrem no confronto entre as diversas variáveis da sala de aula.
 Apresentaram o processo e o desenvolvimento do trabalho, tanto como as dificuldades que enfrentaram para a realização do projecto. Uma das dificuldades encontradas foi a ideia de que a opção pelas Artes parece revelar que a escolha já não deriva da "vocação" mas antes resulta da fuga a outros campos. Assim, desenvolveram o principal objetivo de motivar para o trabalho escolar em todas as disciplinas, sobretudo o campo artístico, o que levou os alunos a compreender que é possível aprender e melhorar, treinando e explorando diariamente, que há ferramentas que nos permitem fazer essa exploração de um modo mais seguro. Nessas ferramentas foram incluídas as diferentes tecnologias, os conhecimentos acerca das abordagens e soluções apresentadas por diferentes artistas, o entendimento da contextualização económica, social e política de cada obra.
Terminaram com o pensamento de que “os processos de ensino e aprendizagem não são uma linha contínua, mas ocorrem com avanços e recuos sendo necessário reavaliar e reconduzir estratégias de ação. É necessário identificar o problema, procurar soluções muitas vezes fora dos modelos quotidianos e agir na busca de melhores aprendizagens.”.
Na minha opinião as Jornadas dos Mestrados em Ensino deste ano foram muito úteis para os alunos finalistas que irão iniciar o relatório de pratica supervisionada.  Alertou-os para a possíveis dificuldades que irão enfrentar e como as superar com tranquilidade. Foi também útil para os alunos que ingressaram nos mestrados em ensino neste ano lectivo, pois demonstrou o que terão de um dia fazer, permitindo que se focalizem já, para o trabalho que tem pela frente, ajudando-os a direcionar os seus interesses e motivações para o trabalho final.

sábado, 2 de janeiro de 2016

EXPOSIÇÃO: GRAÇA MORAIS – CENÁRIOS E FIGURINOS

Exposição de Pintura: "Esperança/Hope" de Teresa Pessoa

Num dia solarengo, daqueles em que nos apetece caminhar e a brisa outonal como que nos acaricia a face, chego finalmente ao meu destino. No âmbito do Openday da Lx Factory, visitei a exposição “Esperança/Hope”, patente durante todo o mês de novembro e início do mês de dezembro de 2015.
Este projecto artístico é da jovem Teresa Pessoa, amiga e colega de curso, com quem tive o prazer de partilhar o gosto pela arte ao longo da licenciatura em Pintura. Natural de Setúbal, este projecto foi a sua segunda exposição de pintura a solo, marcada pela temática da religião.
A exposição, alojada no terceiro piso do Edifício 1, tem nas longas paredes cinza o intimismo e a nostalgia que a grande escala nos impõe. Entro e dentro do espaço não posso, nem por segundos, alhear-me da sensação de solidão e compaixão que impera.
À entrada, Teresa confronta-nos com a seguinte citação da sua autoria:
“A Humanidade está cansada, exausta até.”
Os corredores transformam-se em Claustros de Mosteiros, em fornos de Auschwitz, em ruas mouriscas, em cânticos gregorianos, em fileiras de Guerreiros de Terracota, em Deusas hindus, em Budas cintilantes…  
As pinturas de pequena e média dimensão apresentam-se algumas muito detalhadas outras mais figurativas. Não são obras de fácil interpretação ou compreensão, todavia encorajam o espectador a estar concentrado no mais ínfimo pormenor.
Ao visitante são apresentadas, numa primeira série, seis pequenas pinturas, a tinta da china e a tinta acrílica vermelha sobre papel, onde é possível visualizar a humilhação sofrida e vivida pelos personagens rabiscados. Representam, talvez, as penitências perpetradas nos Autos de Fé da maléfica Inquisição.
Prosseguindo, encontro uma série de pinturas de maiores dimensões que representam: marchas fúnebres, procissões, cenas do quotidiano na religião hindu e campos de concentração. A autora, para além do cristianismo, também colocou em destaque ritos e praticas religiosas ligadas ao islamismo e budismo.
Devido ao choque de cores, uma das pinturas que mais me marcou foi a intitulada: “Tradição 2”. Esta pintura descreve uma cena dum festival religioso na China, no qual os personagens vestem máscaras monstruosas.
No entanto, o que me prendeu o olhar e me despertou os sentidos foram as cores garridas, os fortes amarelos, azuis e encarnados usados nas pinturas a acrílico de grande escala e que contrastam com a simplicidade do branco e preto das gravuras. O papel meio amarrotado e o traço brusco e ousado demonstram a destruição e os erros que a humanidade se submeteu ao longo da história.
- Em nome de quem?
Nesta exposição a religião é encarada com uma certa ambiguidade, a crença como salvação da alma e como perversidade do ser humano.


As representações de um refúgio - exposição de Rafaela Nunes

Letícia de Melo| Licenciada em Artes e Humanidades com major em Historia de Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mestranda em Crítica Curadoria e Teorias da Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Trabalha como curadora independente, idealizadora da Incubadora de Artistas.



Rafaela Nunes  é uma jovem artista com quem tenho o prazer de trabalhar desde 2013. No conjunto do seu trabalho mostra grande capacidade poética tanto quanto sintética, ao reproduzir abstracionismos visuais, para onde somos sugados instantaneamente.  

Refúgio, sua primeira exposição individual onde fiz a curadoria, esteve patente entre 17 de Abril a 1 de Maio de 2015, na galeria da Incubadora de Artistas na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, Rafaela apresentou aproximadamente 20 obras, entre desenhos e pinturas, a artista também concebeu para a exposição um site-specific. 

Imagem de divulgação da exposição.



As obras tentam aproximar os estágios de uma partida; os possíveis  ideais de solidão, caminhos que devem ser percorridos apenas em nossa própria companhia. Ao findar esta jornada individual pela busca de respostas, o que apenas queremos é um lugar seguro, tranquilo e isolado de tudo - Um refúgio onde possamos processar o que a nossa alma apropriou-se e levará por toda vida. 

Esta quase utópica viagem que leva a não-lugares, Rafaela conhece muito bem, na capacidade mimética de reproduzir o conhecido e transportar o nosso olhar para o domínio da
 mancha, o traço, a linha, que a domina. As obras são uma espécie de tentativa de mapeamento destes refúgios: a casa, a cabana na floresta, a bóia ao mar... onde o espectador coloca-se no papel do viajante em fuga, já não mais desejoso em partir, mas ansioso em chegar.






Fotos da exposição.




domingo, 27 de dezembro de 2015

Encontro entre o tecnológico e o artesanal nos manuais pseudo-técnicos de Jander Rama

Pollyanna Motta Martins

Refletir sobre a condição humana em relação as novas tecnologias: essa é a proposta de Jander Rama, jovem artista e também professor de artes da educação básica, em suas obras da série “Manuais pseudo-técnicos: A ciência fictícia no âmbito de tecnologias e corpos obsoletos” expostas na Pinacoteca do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em abril de 2015.
A exposição traz uma ideia muito bem humorada do resultado do cruzamento entre desenho técnico, gravura, elementos extraídos do campo da engenharia, arte gráfica e muita invenção e ironia em suas linoleogravuras que lembram cópias heliográficas. O azul, cor predominante nas obras de Jander Rama, é uma referência a heliografia. Seu interesse é devido as questões anacrônicas, de um passado da engenharia que o azul remete.
A série de manuais pseudo-técnicos é composta por seis manuais mostrados em formato de livro. São manuais fictícios que questionam a presença constante da tecnologia no nosso cotidiano e no nosso corpo e sugerem a integração entre os indivíduos e algumas próteses, em um diálogo com a inteligência artificial.
Jander Rama, que é mestre e doutor em Poéticas Visuais, também cursou engenharia na graduação, o que explica o seu processo criativo, que envolve desenhos técnicos, mas completamente inventivos, como implantes e cyborgs. Na sua busca por soluções fantasiosas para problemas humanos, fica claro o seu interesse em conciliar a arte e ciência e realidade e ficção.
As gravuras não têm legendas, apenas há linhas brancas no lugar onde suponha-se estar o número e a legenda. Em uma entrevista, Jander Rama disse ter dificuldades em fazer letras invertidas na chapa de linóleo com goivas e que esse é um dos motivos pelas suas obras não ter legendas. Mas, além disso, esse fato curioso acaba por deixar a obra mais aberta, dando a possibilidade da obra ser completada pelo observador.
A linguagem científica utilizada pelo artista serve como ponto de partida para tratar de temas relacionados ao diálogo entre homem e máquina e nos faz refletir sobre a obsolescência pela qual os nossos corpos estão submetidos.
            Atualmente, há uma exposição de Jander Rama intitulada “Aero-Trem Submarino – Estudo para ligação entre Porto Alegre, Guaíba e Eldorado do Sul”, que segue até 3 de janeiro, na Galeria Mario Quintana, em Porto Alegre, onde o artista propõe com muita ironia e imaginação um cruzamento dos meios de transporte aéreo, aquático e terrestre em um desenho de 11 metros.

Jander Rama. Implante para refrescar a mente, 2014
Água-forte sobre papel Hahnemühle, capa e ponteiras de metal, 45 cm x 35 cm

Jander Rama. Somos todos Charlie Chaplin em Tempos Modernos, 2014
Água-forte sobre papel Hahnemühle, capa e ponteiras de metal, 45 cm x 35 cm

sábado, 5 de dezembro de 2015

Reflexão Crítica sobre o 16º Congresso Português de Arte-Terapia

Reflexão Crítica sobre o 16º Congresso Português de Arte-Terapia


              Nos passados dias 24 e 25 de Outubro de 2015, decorreu o 16º Congresso Português de Arte-Terapia|Psicoterapia (1º Congresso Português Inter-Psicoterapias), organizado pela Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia (SPAT), na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, sob a temática “O Estado da Arte – Psicoterapias em Portugal” (ver Fig. 1). 
Fig. 1 - Cartaz oficial do 16º Congresso Português de Arte-Terapia
Fonte: http://arte-terapiadanielamartins.blogspot.pt/


            Ao longo das diversas comunicações que aconteceram durante estes dois dias, foi possível não só, adquirir conhecimentos e noções básicas de vários conceitos e definições subjacentes ao exercício da Arte-terapia e da Psicoterapia – desde a identidade e o reconhecimento do eu/self em contato e na relação de semelhança/diferença com o outro, a psicanálise e a origem e as influências do outro ao longo da vida do indivíduo, vínculo/relacionamento interpessoal no grupo onde o indivíduo está inserido e com o terapeuta/mediador, as finalidades e estratégias de intervenção da arte-terapia, entre outros –  , como também reconhecer a prática da Arte-terapia e os seus benefícios e resultados alcançados e observáveis, em contextos e junto de públicos-alvo diversos, como a população idosa, indivíduos com esquizofrenia, surdez ou síndrome de Asperger.
            A atual sociedade numa era em que a globalização e a divulgação da informação atingem proporções exponenciais, as novas tecnologias e a evolução da ciência e da medicina associada a esta fenómeno (quase) universal; uma atual sociedade em constante contato com as atividades industriais, comerciais e dos serviços, distanciada do mundo natural, onde a poluição, a falta de tranquilidade, a dependência socioeconómica do “relógio” e da sua própria rotina diária levam a problemáticas e consequências associadas à falta de tempo e de atenção, desde o stress, mau estar, sofrimento psíquico e depressão, síndromes metabólicas – incluindo a obesidade, hipertensão arterial e perturbações metabólicas. Assistimos a indivíduos cada vez mais fechados em si mesmos, consumistas e materialistas, com o desejo de poder, de competir, de se tornar o ser perfeito e genial que, frequentemente, são incapazes de encontrar um sentido na vida ou de se identificar com a organização/elite social, desencandeando a infelicidade e o “adoecimento”, procurando a via da medicalização para resolver os seus problemas e traumas. Porém, é de extrema importância que se compreenda que, muitas vezes, a saúde dum indivíduo não pode ser resolvida fora do contexto social.
A Arte-terapia é vista como uma ferramenta potenciadora da criatividade e do desenvolvimento pessoal, em que através do criar e do processo criativo, o indivíduo consiga exprimir-se através das cores e das formas, aceder a um espaço onde tem lugar o jogo entre a realidade interior (o eu, o self) e o exterior (o outro, o grupo, a sociedade onde está inserido). O exercício da criatividade não cura as doenças, mas pode amenizar a dor e trazer a tranquilidade e a sensação de bem estar e de relaxamento a quem pratica a arte, independentemente da sua expressão artística (pintura, dança, música, teatro, entre outros). A utilização das artes generalizou-se na sociedade, seja como forma de ocupação de tempos livres como em contextos hospitalares, de saúde e institucionais, tendo como resultado a “arte bruta”, ou seja, inúmeros trabalhos feitos por pessoas excluídas, quer a nível socioeconómico ou a nível cultural.
        Deste modo, foi possível comprovar os benefícios da arte como terapia com alguns casos práticos e reais, trazidos por alguns oradores e terapeutas: na presença da síndrome de Asperger (definida como uma perturbação neurocomportamental da base genética e uma disfunção com origem num funcionamento cerebral particular) – sendo caraterísticas mais comuns a dificuldade na interação social, na relação com o outro, a incompreensão pelo outro, a falta de expressão facial e uma imaginação muito fértil dentro do seu Universo – , com a prática de várias formas mediadoras artísticas (desenho, pintura, dança, modelagem, expressão dramática e escrita livre), o indivíduo é convidado a representar o que sente e o que o “outro” sente, o seu próprio mundo de forma tridimensional e a expandir as suas capacidades motoras e cognitivas, tendo como resultados a partilha das criações com o outro e uma respetiva interação social mais cuidada e o sorriso como expressão facial. A intervenção da Arte-terapia com idosos – um público vulnerável caraterizado por uma baixa auto-estima e valorização, com sentimento de inutilidade e que não tem nada para dar ou oferecer – permitiu que estes se sentissem mais confiantes em relação ao seu próprio trabalho desenvolvimento, com maior capacidade de iniciativa e de autonomia, quer no “fazer artístico” como também perante a sua vida. Outro caso prático apresentado foi a intervenção da Arte-terapia na presença da Psoríase (doença crónica de pele complexa que, através de interações biológicas, psicológicas e sociais, a vida emocional afeta o sistema orgânico, assim como o sistema orgânico afeta a vida emocional), em que os fatores associados a esta patologia – dificuldades do dia-a-dia no processo de comunicar com o outro, tristeza, agressividade, responsabilidade pela doença e quadros depressivos e corrosivos – eram minimizados através da prática da Arte-terapia, possibilitando a expressão por meio de imagens e colmatando as dificuldades de comunicação, a afirmação e o reconhecimento de um espaço terapêutico e de criação de novas dinâmicas relacionais e de integração, e o uso da criatividade como estratégia de resolver situações.
A Arte-terapia proporciona um espaço destinado à criatividade artística num contexto relacional e facilitador do desenvolvimento do paciente/indivíduo. A arte é, desta forma, vista como um exercício de racionalidade, sensibilidade, emoção e exercício cognitivo, levando a um sentimento de pertença ao mundo, a si mesmo e ao “outro”. Ao contrário de outros países como o Brasil, a Inglaterra ou o Canadá, o arte-terapeuta ainda não é uma profissão reconhecida em Portugal, sendo necessário fomentar o inter-enriquecimento mútuo, validando uma identidade comum, inerente a uma prática com a finalidade afim que define um exercício profissional, tal como os artistas são os profissionais da Arte, independentemente se desenvolvem o cubismo, o surrealismo ou o dadaísmo.
Num ponto de vista mais pessoal e tendo em conta a minha formação académica de base em Animação Sociocultural, considerei este congresso e as temáticas aqui abordadas e desenvolvidas de extrema importância e pertinência, na medida em que as Artes são formas e mediadores de expressão cultural que podem, por um lado, desenvolver a comunicação (verbal e não verbal) e a identidade/forma de expressão do próprio indivíduo espontaneamente com e para o “outro”, assim como aproxima e reconhece diferentes manifestações culturais e artísticas que nos identificamos na semelhança e diferença com o “outro”, sem esquecer todos os benefícios inerentes à prática das artes e que foram aqui nomeadas ao longo desta reflexão.


Referências Bibliográficas
·      APSA – Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger. (2015). O que é a Síndrome de Asperger? Consultado a 30 de novembro de 2015, em: http://www.apsa.org.pt/sindrome-de-asperger/o-que-e
·   PSO Portugal – Associação Portuguesa da Psoríase. (2015) Psoríase – O que é? Consultado a 30 de novembro de 2015, em: http://www.psoportugal.pt/live/page_reader.php?p=301&t=TyBxdWUgw6k/&g=UHNvcsOtYXNl

·      Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia. (s.d.). 16º Congresso Português de Arte-Terapia | Psicoterapia. Consultado a 30 de novembro de 2015, em: http://arte-terapia.com/congresso/